O 'cisne negro' é, por definição, um evento improvável,
na imagem criada pelo ensaísta Nassim Taleb. No ano que, agora, finda, o
vaticínio dos analistas era o risco de uma recaída na recessão em 2010 -
um double-dip, no economês americano. Acabou por surgir no lago um 'cisne negro' - uma onda de pré-defaults
na zona euro, um dos couraçados monetários do mundo. O que era um caso
de loucura isolada na gelada Islândia e um assunto de vigarice política
na quente Grécia em finais de 2009 acabou por abalar o mercado da dívida
soberana e tornar-se na crise do ano. Os incrédulos no risco de
bancarrota no mundo dos ricos renderam-se à evidência.
Para 2011, os candidatos a 'cisnes negros' são
vários - a zona euro fragmenta-se (o que é desejado por muitos); rebenta
uma guerra de projeção internacional inesperada, sobretudo na Ásia (uma
região do mundo em que "nenhum vizinho parece gostar do outro", como
nos disse Michael Pettis, professor em Beijing); a libra e o dólar
resolvem fazer uma fusão atrapalhando a vida ainda mais ao euro e ao
renminbi, alvitra o consultor indiano Ashutosh Sheshabalaya; a China e a
Índia, apesar dos ódios recíprocos, resolvem solidificar uma aliança
asiática contra a supremacia americana no mundo e a União Europeia e a
Rússia oficializam o "namoro" por seu lado com o mesmo fito.
Mas há outros dois "cisnes negros" que sobressaem
no consenso dos 11 entrevistados pelo Expresso em vários continentes. A
China e as commodities estão no centro do improvável - o rebentar de "bolhas" especulativas é rejeitado como pura fantasia pelos analistas respeitáveis.
Somaram 11 os temas que os 11 entrevistados colocaram na mesa para 2011.
Dólar aguenta-se
Os "astros" continuam a favorecer a nota verde como
moeda internacional. "O euro vai ter uma década difícil e a China vai
ter de fazer um ajustamento muito sério e, quem sabe, se para controlar o
processo, não vai ter de inverter a própria internacionalização do
renminbi que iniciou ainda timidamente em 2010", diz Michael Pettis, um
americano a lecionar na Guanghua School of Management da Universidade de
Beijing. Mas isso não significa que o estatuto atual viverá para
sempre: "O dólar já está a perder o seu papel de liderança. O processo
vai levar anos, mas já está em curso, não haja ilusões", afirma o
americano David Kotok, um especialista financeiro, presidente da
Cumberland Advisors, da Florida.
Euro mantém-se mas com novo desenho
Kevin O'Rourke, professor no Trinity College, em
Dublin, admite abertamente estar pessimista quando interrogado se a zona
euro se pode fragmentar: "Possivelmente". E encara a desintegração da
zona euro como um potencial "cisne negro" em 2011. O mais radical sobre o
euro é o indiano Ashustosh Sheshabalaya, de Nova Deli: "O euro está
numa rampa de saída. Perdeu a sua oportunidade de ouro nos anos 2000 a
2006". Mas o professor de Economia Gylfi Zoega, da Universidade da
Islândia, logo contra-ataca: "Não, nem pensar, isso não vai acontecer!".
A maioria dos não-europeus entrevistados são, de facto, menos
eurocéticos. "O euro sobrevive, mas com uma forma diferente - ou com
união política incluindo união orçamental, ou ficará restrito a um grupo
mais pequeno. Com o atual figurino não há hipótese", afirma Michael
Pettis. "As pressões para desmembrar o euro podem ser resistidas", diz,
por seu lado, Peter Drysdale, professor emérito de Economia na Crawford
School of Economics and Government da Universidade da Austrália, em
Camberra. David Kotok é provavelmente o mais otimista de todos: "A zona
euro mantém-se intacta e sairá mais forte no pós-crise".
Guerra entre o BCE e a Reserva Federal
O dólar aguenta-se em virtude das fraquezas
internas da zona euro, admite o professor alemão Ansgar Belke, diretor
do IBES, um instituto da Universidade de Duisburg-Essen, mas, com grande
probabilidade a sua sorte será decidida "numa batalha direta entre a
Reserva Federal (FED) americana e o Banco Central Europeu (BCE)". E
explica esta "guerra" não-convencional: "Os capitais chineses e russos e
a liquidez internacional vão fluir para a zona do euro se os mercados
começarem a perder continuamente a confiança na política macroeconómica
americana". Há aqui uma oportunidade para os europeus "se o BCE souber
sair primeiro das políticas monetárias expansionistas", conclui Belke.
BCE transforma-se num bad bank da dívida
"Já começou a transformar-se nisso - desde a segunda
semana de maio de 2010 que o principal foco do BCE, através do
Securities Markets Programme, é a compra de títulos de dívida pública de
certos governos que bem poderemos considerar 'tóxicos'", indigna-se o
professor alemão Ansgar Belke, que vê esta nova personalidade do BCE a
tornar-se gritante em 2011. É um dos traços que mais espanta, também, os
não-europeus. "Em certo sentido, já é isso mesmo", concorda o
australiano Peter Drysdale, no que é secundado por Ashustosh
Sheshabalaya que vê no FMI "um segundo nível de garantia" nesse processo
anormal. Mas chama a atenção aos europeus que o FMI não vai continuar a
ser o mesmo de antes: "Preparem-se: novas potências - as economias
emergentes - desempenharão maior papel lá dentro".
Re-estruturação das dívidas soberanas na zona euro
Era o melhor. Pettis acha mesmo que os países do
euro em apuros deveriam recusar ajuda e "focalizar-se em conseguir um
perdoar de dívida significativo. Sem isso não conseguirão crescer - os
precedentes históricos são muito claros". No que é acompanhado pela
italiana Cinzia Alcidi, do Center for European Policy Studies, de
Bruxelas: "Precisamos de uma solução radical e não de soluções parciais e
temporárias". O período crítico para esta guinada pode ser o segundo
semestre do ano quando vai convergir o grosso do financiamento da dívida
soberana na Europa e Japão com os Estados Unidos, incluindo as
municipalidades ('Muni') e os estados da federação americana. São 8
biliões de euros que vão ter de ser financiados para aguentar os
orçamentos destes países ricos, 16% do PIB mundial do próximo ano.
Aversão ao risco em tecnologia vai manter-se
"Os próximos anos vão continuar a ser de aversão ao
risco - e isso marca as novas tecnologias", afirma Michael Pettis. Por
seu lado, Peter Cohan, que é um especialista em investimentos em
tecnologia, afirma que não espera, ainda, para o ano "algo que eu possa
caracterizar como uma tecnologia funcional - ou seja, que crie um enorme
salto de produtividade que arraste uma vaga de investimentos por parte
das organizações que leve a mudar a forma como operam". David Caploe,
que é economista-chefe da EconomyWatch, em Singapura, destaca, ainda,
uma outra nota pessimista: "O cenário da alta tecnologia está a mover-se
de um espaço empreendedor para uma dinâmica fundamentalmente
oligopolística, em que os que ficam em cena são os grandes atores. Com
este contexto, sobra pouco espaço para as start-ups".
De um G2 a um G5
É o tema que mais gera opiniões díspares. Enquanto
Ansgar Belke acha que o G2 - Estados Unidos e China - vai continuar a
impor-se como o "motor" do G20, Michael Pettis considera um G5 (EUA,
China, Índia, Japão e União Europeia) como uma realidade geoeconómica
"mais expressiva" que irá tomando forma. Cinzia Alcidi vê alto risco no
G2: "O que estamos a ver é que a China opta por um diálogo primeiro com
os Estados Unidos e só marginalmente com a Europa. O que isto sugere é
que o diálogo vai acabar por ser mais bilateral do que multilateral".
Mas o G20 não corre o risco de se desintegrar, apesar de aparentar ser
mais retórico do que prático: "É um estabilizador global", afirma o
australiano Drysdale.
China, o maior "imponderável"
"A próxima geração que vai tomar conta do poder em
Beijing em 2012 começou já a tentar perceber como gerir a mudança do
modelo de crescimento da China. E o processo vai ser muito fracionista",
diz Pettis a partir do seu lugar privilegiado na capital do gigante
asiático. Pelo meio, há o risco de um estoirar da "bolha" especulativa,
dizem Peter Cohan e Gylfi Zoega, o que seria um verdadeiro "cisne
negro". David Caploe considera inclusive a economia chinesa como "o
maior imponderável de 2011".
Rebentar da 'bolha' de commodities
A "bolha" nos preços das commodities
(mercadorias transacionadas em Bolsa) pode subitamente estoirar em 2011,
diz Peter Cohan, que aponta um pecador no seu próprio país: "Ela foi
alimentada pelas políticas da Reserva Federal no sentido de deitar
dinheiro sobre a economia global".
BRIC é casamento de conveniência
Ninguém acredita que haja uma aliança geopolítica mesmo ad hoc
entre os BRIC - o acrónimo inventado pela Goldman Sachs para
caracterizar, no início dos anos 2000, a emergência das quatro economias
(Brasil, Rússia, Índia e China) fora do G7, o fórum dos sete países
mais ricos que, então, liderava o mundo. Sheshabalaya chama ao acrónimo
BRIC um "casamento de conveniência". Pettis afirma mesmo que "nunca
houve aliança substancial, pois os interesses de cada um nesse grupo são
radicalmente diferentes". O seu mediatismo recente é provavelmente uma
"herança" das "políticas idiotas de George W. Bush,
mais do que uma tendência natural", acrescenta o professor em Beijing.
Peter Cohan, por seu lado, afirma mesmo: "Os BRIC sentem que há limites.
Se se extremassem muito contra o resto, estariam a cortar as suas
próprias gargantas".
A Era da Hiper-Transparência
Em 2010 tivemos as primeiras amostras com a
Wikileaks. A era da "híper-transparência" vai chegar em força à economia
e à finança, depois da diplomacia, diz o canadiano Don Tapscott,
professor da Rotman School of Management, na Universidade de Toronto.
"Por isso, se a sua empresa vai ser despida - e, na realidade, não tem
outra escolha - mais vale estar couraçada", conclui.
Citações Escolhidas dos 11
1- #"O projeto europeu de moeda única está a
colocar o carro à frente dos bois. O ponto de alteração radical pode
acontecer quando a França vir a sua notação baixar e o seu risco
aumentar significativamente em relação ao coração do euro, a Alemanha"
Ashutosh Sheshabalaya, consultor económico, Nova Deli, Índia
2- #"A sorte do dólar como divisa de reserva será
decidida numa batalha direta entre a Reserva Federal e o Banco Central
Europeu. Se este último conseguir ser o primeiro a sair de políticas
monetárias expansionistas, poderá ficar numa posição de ganhar esta
batalha"
Ansgar Belk, diretor do IBES, Universidade Duisberg-Essen, Alemanha
3- #"Está, agora, claro, na crise da dívida na
Europa, que soluções temporárias e parciais não funcionam. Apenas
contribuem para aumentar o custo futuro da sua resolução. Em certo
momento, a lista de soluções possíveis pode ser mesmo muito curta"
Cinzia Alcidi (investigadora, Center for European Policy Studies, Bruxelas, Bélgica
4- #"Algo desagradável pode acontecer a Espanha. Se
isso ocorrer, então pode haver um efeito dominó, com a Itália, que não
está em grande forma, e, ainda que muito mais abaixo no caminho, a
França"
David Caploe, editor EcononyWatch, Singapura
5- #"Vários países periféricos do euro terão de
ser apoiados em re-estruturações da dívida. Muito stresse, mas não
prevejo bancarrota técnica. A zona euro vai ficar intacta e mais forte
no pós-crise"
David Kotok, consultor financeiro, presidente da Cumberland Advisors, Flórida, EUA
6- #"Vamos assistir ao colapso das aplicações. Em vez
de escreverem aplicações para correr em sistemas operativos móveis
separados, os desenvolvedores vão regressar à uniformidade dos sitos na
web acedidos através de navegadores"
Don Tapscott, escritor de tecnologia, professor na Rotman School of Management, Universidade de Toronto, Canadá
7- #"A China ainda tem de se afirmar como número
dois no mundo. E não o consegue só através do modelo exportador.
Precisa de instituições fortes, eficiência, inovação e empreendedorismo"
Gylfi Zoega, economista, Universidade da Islândia, Reiquejavique, Islândia
8- #"A desintegração do euro é o 'cisne negro'
que poderá surpreender-nos. Há a possibilidade do euro ir por água
abaixo com a fragmentação do projeto de União Europeia"
Kevin O'Rourke, professor, Trinity College, Dublin, Irlanda
9- #"Talvez venha a fazer mais sentido começar a
falar de um G5, que inclua além dos Estados Unidos e da China, a Índia,
o Japão e a União Europeia, se esta última aprender a se comportar de
um modo maduro e inteligente"
Michael Pettis, professor, Universidade de Beijing, Beijing, China
10- #"Não vejo nada no horizonte do próximo ano
que se possa caracterizar como uma nova tecnologia funcional. Isso
ocorreu nos anos 1990 mas não estou a ver algo de similar mesmo com os
avanços nos motores de pesquisa e nas redes sociais"
Peter Cohan, analista financeiro e tecnológico, Boston, EUA
11- #"O maior perigo continuam a ser acontecimentos
políticos imprevistos, que desencadeiem, como um fósforo, uma
confrontação na península coreana, ou um conflito inesperado no Sul ou
no Ocidente asiáticos, ou mesmo no Médio Oriente"
Peter Drysdale, professor, Universidade Nacional da Austrália, Camberra, Austrália
Ampliado de artigo publicado na edição impressa de 30/12/2010