A
crise provocou já uma mutação no perfil dos fluxos de investimento
mundiais no final do ano passado, o período agudo do Grande Pânico
financeiro. Há uma clara emergência dos países em desenvolvimento e em
transição (classificação técnica seguida pela UNCTAD) nestes fluxos
internacionais, sublinha-nos o analista indiano Ashutosh Sheshabalya.
Essa mutação é já mais visível no que respeita aos destinos do
Investimento Directo Estrangeiro (IDE) do que no perfil dos países que
mais investem no estrangeiro.
O IDE destinado aos países em
desenvolvimento e em transição (estes últimos incluem os antigos países
da Federação soviética e da antiga Europa de Leste) passou a
representar 43% do total desses fluxos, subindo 11 pontos percentuais
em relação a 2007, um crescimento muito assinalável, segundo dados,
agora, divulgados pela UNCTAD (organismo das Nações Unidas para a
Conferência sobre Comércio e Desenvolvimento) no seu relatório World Investment Report
com dados finais para 2008.
O
bloco formado pela China e Hong Kong atraiu, em 2008, 171 mil milhões
de dólares de IDE, colocando-se como o segundo mais importante destino
do mundo, a seguir aos Estados Unidos, que atraíram 316 mil milhões.
Apesar da crise, os EUA mantiveram uma capacidade de atracção
assinalável, tendo o IDE crescido 17% em relação a 2007. A França e o
Reino Unido sofreram quebras importantes como destinos do IDE, tendo
sido ultrapassados pelo bloco chinês. A Rússia, com um crescimento de
27% do IDE, posicionou-se em quinto lugar, em virtude da quebra brutal
ocorrida em relação ao Canadá. No conjunto, os BRIC representaram, em
2008, 1/5 dos destinos de investimento, o que compara com os EUA que
representaram 26%.
No campo do investimento no estrangeiro,
o desequilíbrio nos exportadores de capital é ainda muito grande, com
os países desenvolvidos dominando esses fluxos em 81%, e com os EUA
liderando com 17%. Apesar de os BRIC representarem, apenas, 11%, o
bloco China e Hong Kong conseguiu subir para o último lugar do clube
dos 5 maiores exportadores de capitais, depois dos EUA, da França,
Alemanha e Japão.
O bloco chinês ultrapassou, em 2008, o
Reino Unido, que saiu fora do clube dos cinco, em virtude de uma quebra
de 60%. Neste clube restrito, o Japão aumentou em 74% o seu
investimento no estrangeiro e o bloco chinês em 35%.
Os
chineses desenvolvem desde há alguns anos uma estratégia de projecção
externa conhecida como "go global" e os japoneses voltaram, de novo, à
arena internacional na qual tinham estado muito activos nos anos 1980
antes do início da crise interna prolongada que assolou o país do Sol
Nascente. China e Japão, recorde-se, são os dois países com maiores
reservas em divisas estrangeiras do mundo, respectivamente 2,3 biliões
(incluindo China e Hong Kong, ou seja mais de 1500 mil milhões de
euros, 25% de todas as reservas em divisas estrangeiras no mundo) e 1
bilião de dólares (670 mil milhões de euros).
Tanto
Sheshabalaya como William Thomson, presidente da Private Capital
sediada em Hong Kong, vêm nestas mutações "indicadores de uma
multipolaridade crescente e de uma difusão do poder geoeconómico" que
já não se revia na composição do G7, a cimeira mundial que dava cartas
antes da crise. A subida da China em ambos os tipos de fluxos de
investimento leva Thomson a prever que "a relação bilateral entre os
EUA e a China se torne na mais importante do mundo", enquanto o
analista indiano sublinha que esse "tango macabro a dois coloca vários
dilemas à China a médio prazo".